[32] VISITA AO PSICANALISTA

Data: December 20th, 2008 | Comentarios : none | Categorias: ANTOLOGIA CIBERNÉTICA DE BRUNO KAMPEL.


(Tratarei de ser conciso na minha apresentação, que a consulta é muito cara)

 

 

Para que tenha uma idéia o difícil ou o fácil que às vezes resulta tudo, doutor: Sou o mesmo desde que nasci, mas também sou outro desde a mesma data. Como um, atendo os assuntos quotidianos, e como o outro, oponho idéias às minhas idéias. Às vezes o conflito é doloroso.

 

 

(O quê?… Bom, então deixo as divagações para mais tarde. Começo pelo início, e pronto)

Comecei os meus estudos sobre o tudo e o nada (alias Vida), quando tinha dois anos e quatro meses, ao tentar descobrir o que é que acontecia se enfiava um garfo na tomada da parede. Foi a primeira lição que a vida me ensinou: garfo na tomada = queimadura e lágrimas.

 

Depois veio a escola primária, na qual me ensinaram a obedecer sem questionar e onde por conta própria aprendi a perguntar e desobedecer.

 

No curso secundário descobri como abrir janelas ainda que não existissem janelas, e a supor que nada era como parecia ser, e a crer que a puberdade é a penúltima estação antes do Nirvana.

 

A faculdade começou a me desensinar que saber é uma ilusão; que imaginar é um teorema indemonstrável; que procurar é uma armadilha; que divergir é um estigma, que aprender é um coitus interruptus.

 

Ler foi o meu melhor mestre. Entender foi o meu primeiro precipício. O primeiro de muitos.

 

À margem dos estudos regulares, a fome alheia soube azedar o sabor dos meus almoços e jantares. O torturador ensinou-me com a sua arte que a dor não tem limite, pois é tão interminável como a falta de vergonha ou a ignorância ou o fanatismo.

A injustiça foi clara na sua mensagem de que ela é mais forte que a mais forte das boas intenções, e o desejo de vingança demonstrou ser o pai de todos os abusos, e a corrupção a causa mortis de todos os governos.

 

O que não posso esquecer de dizer, doutor, é que pelo fato de aprender que a lepra é a essência do Poder e a gangrena a marca registrada de quase todos os governos de quase todos os paises em quase todas as épocas, jamais deixei de tentar injetar um pouco de vergonha na cara da lepra, e na gangrena igual dose de cordura, e quanto aos desgovernos, sempre que foi possível os combati sem que me tremessem os joelhos.

 

E assim, doutor, a vida foi mostrando as suas garras, despindo as suas mentiras, destruindo os seus valores. E foi assim e por isso que acabei neste divã, pagando para que me escute e me entenda, ainda que saiba que pouco lhe importa o que escute e muito menos o que entenda, a não ser o preço que me cobra por aceitar ouvir minhas angústias.

 

Mas não se engane, viu?.. Hoje, anos-luz de distância desses degraus da escada que ainda subo, contemplo a vida e seus atores com a mesma curiosidade com que outrora olhei a tomada elétrica e o garfo como se tivessem nascido o um para o outro. Aprendo a descifrar a vida com igual intensidade com a qual somava experiência e diminuia obediência. Procuro o sentido no fundo do mais profundo semsentido com similar avidez à que alguma vez usei para pesquisar com o rabo dos olhos o decote das minhas virgens preferidas.

 

De todo esse aprender e desaprender; de todo esse saber para esquecer; de todo esse Ser e não apenas Estar, sobram – escondidos na bainha do Presente – um amontoado de palavras; um ramilhete de idéias; um batalhão de projetos, que tento lapidar em frases que façam sentido; em textos que sejam profundos; em mensagens que tenham essência.

 

Ainda que quase nunca consiga ordenar as palavras; ainda que quase nunca alcance a implementar minhas idéias; ainda que quase nunca chegue a desenvolver meus projetos, não desisto, mas insisto e começo de novo. E assim sucessivamente.

 

 

(O quê?… Ah! Tinha esquecido que com vocês da escola psicoanalítica do Lacan a consulta é cada vez mais curta e o preço cada vez mais alto. Bom… Na proxima quinta-feira às 18:30?… )

Bruno Kampel

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[31] SOLIDÃO EM 151 PALAVRAS

Data: July 26th, 2007 | Comentarios : none | Categorias: ANTOLOGIA CIBERNÉTICA DE BRUNO KAMPEL.

A solidão é a capital do silêncio e o país no qual habitam todas as ausências. É uma cidade povoada por ruas que não se cruzam, por esquinas que não se encontram, por nuvens que sempre chovem, por humanos que não se entendem, por perdidos que não se acham, e sempre que nos deixamos hipnotizar por seus mutismos definitivos e as suas respostas sem perguntas, escorregamos nas entrelinhas da nossa angustia existencial, porque nos transformamos num mero cenário sobre o qual o medo de ter medo de estar sozinhos pesa mais do que o desejo de estar acompanhados; e o silêncio que nos impede vocalizar o que pensamos e sentimos fala mais alto do que a necessidade de esgrimir sonoramente o direito ao uso da palavra; e o temor reverencial que o calar nos impõe é mais forte que a vontade de gritar de alegria e tremer de emoção com que sonhamos.

 

 

(c) Bruno Kampel

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[30] IDA E VOLTA

Data: July 17th, 2007 | Comentarios : none | Categorias: ANTOLOGIA CIBERNÉTICA DE BRUNO KAMPEL.

Aproveitei a manhã órfã de projetos e árida de obrigações a cumprir, e vencendo a todos os meus medos e fantasmas, finalmente dei o passo tantas vezes adiado e fui passear pela Avenida Atlântica, onde o sol deu-me as boas-vindas com um afago morno e doce que fazia muito tempo não sentia sobre a minha pele já acostumada ao nublado céu escandinavo.

 

A viagem foi bem curtinha. Na verdade, bastou um fechar de olhos e ali estava eu, outra vez “galopando” o calçadão a caminho do Leme, e à medida que avançava ia desintoxicando-me da angústia existencial que sem direitos adquiridos nem licença de funcionamento insistia em abrir as suas portas nessa manhã feita para não pensar em nada mais que não fosse não pensar em nada mais.

 

Creio que foi quando chegava à esquina da Princesa Isabel pisando com cuidado para não machucar à sombra de mim mesmo que me olhava tristonha desde as pedras portuguesas dessa rua que já fora tão minha, quando finalmente consegui desembaraçar-me desse mal-estar vitalício que há séculos insiste em ocupar militarmente os meus dias e as minhas noites. Desse ponto em diante a caminhada foi agradável e descontraída, enchendo os meus pulmões de rosados sonhos-de-valsa e picolés de chocolate a cada passo que dava, fazendo-me esquecer os motivos que geraram e gestaram essa angústia mal parida.  

 

Desacostumado, e por isso enjoado de tanto sol, nem bem cheguei ao fim do Leme decidi que já era tempo de voltar, e foi o que fiz sem pensar duas vezes. Fechei com sete chaves os portões da fantasia, e abrindo os olhos retornei ao inverno sueco do qual sou inquilino honoris causa, e sem perda de tempo sentei frente ao computador para registrar na minha memória eletrônica o fato de que finalmente cheguei à triste conclusão de que a lição tantas vezes aprendida não oferece nenhuma garantia, pois mesmo que conheçamos as atitudes e os argumentos que devemos esgrimir para proteger-nos das adversidades, não sempre os empregaremos quando sejam necessários, já que a nossa malsã necessidade de sofrer iguala em fundamento e urgência o nosso imperativo desejo de derrotar a esse mesmo sofrimento.

 

Satisfeito com o bronzeado que a minha aventura metafísica imprimira na epiderme das minhas lembranças, desliguei o aparelho cibernético com uma sensação de déjà vu e ao mesmo tempo de dever cumprido, e fui visitar o jardim da minha casa, onde a neve fazia muitas horas que me esperava sentada sobre a grama congelada e destingida que – por baixo do manto branco que a cobria - pacientemente contava os dias que faltavam para a chegada do tão esperado degelo primaveral.

 

Comecei a assoviar o samba preferido da neve, e esta, com um olhar entre insinuante e pidão, convidou-me a dançar ao ritmo de um par de lágrimas virtuais, e eu, herdeiro universal do meu passado, aceitei o convite, e enlaçando pela cintura ao desconsolo, e apoiando a minha face nos mil rostos de outros tempos, dancei uma solidão interminável.

 

© Bruno Kampel

 

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